Eventos climáticos extremos desafiam infraestrutura e agronegócio no país

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Jornada Valor de Jornalismo em Seguros detalha a importância desse segmento para proteger a economia e a sociedade diante das transformações em curso

Desastres climáticos afetaram 84,5% dos municípios brasileiros entre 2015 e 2024, de acordo com um levantamento realizado pelo programa AdaptaCidades, do governo federal. Os eventos causaram prejuízos e danos materiais de R$ 455,5 bilhões e deixaram 1,7 milhão de moradias danificadas e 324,6 milhões de pessoas afetadas.

Além de mais impactantes, os incidentes se tornaram mais frequentes. De acordo com estudo realizado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica em conjunto com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), entre 2020 e 2023 o Brasil registrou 7.539 desastres causados por tempestades, um salto de 222,8% na comparação com toda a década de 1990, quando ocorreram 2.335 episódios.

A economia e a sociedade vão precisar conviver com essa nova realidade, em especial setores como infraestrutura e agronegócio, aponta Dyogo Oliveira, presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). “O governo aprovou em julho uma medida provisória que destina cerca de R$ 100 bilhões a produtores que tiveram perdas nas safras recentes. Esse programa só precisou ser criado porque os produtores não tinham seguro”, exemplifica.

Em relação à infraestrutura, recentemente o governo federal tem se voltado para a importância de inserir os riscos climáticos nos contratos de concessões, detalhou Oliveira, que participou da agenda de palestras e debates da Jornada Valor Econômico de Jornalismo em Mercado de Seguros. Realizado entre 31 de agosto e 4 de setembro, em São Paulo (SP), o programa integra a série de treinamentos Jornadas Valor e foi resultado de uma parceria entre editora Globo e CNseg, com patrocínio de Bradesco Seguros, MetLife, Seguros Unimed, Tokio Marine e Zurich.

“O seguro é uma das ferramentas mais eficazes para absorver e transferir impactos financeiros decorrentes de eventos adversos. Proporciona resiliência ao facilitar a recuperação mais rápida após eventos extremos, reduz a dependência de recursos públicos, promovendo maior eficiência na gestão de crises, e protege as pessoas mais vulneráveis”, afirmou Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg.

José Marengo, climatologista e coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, lembrou que a maior recorrência e gravidade tem impactos diretos sobre as seguradoras. “O setor encontra desafios, como a baixa penetração do seguro residencial no Brasil, pouca cobertura específica para enchentes e o aumento dos prêmios em áreas de maior risco climático. Uma forma de responder a esse desafio é incorporar mapas de risco.” Nesse sentido, a Ferramenta de Riscos Climáticos da CNseg contribui com dados práticos, permitindo consultas online detalhadas por CEP.

Cuidado com a infraestrutura

Em 2025, o Brasil investiu cerca de R$ 280 bilhões em infraestrutura, crescimento de 3% em relação ao ano anterior e o equivalente a 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib).

No entanto, o estoque de infraestrutura do país permanece em 36% do PIB, nível inferior ao das principais economias globais. Apenas para atender às necessidades básicas de desenvolvimento do país, seria necessário um aporte adicional de pelo menos R$ 220 bilhões anuais. Nesse contexto, o setor segurador pode ajudar a evitar a paralisação de obras, ou mesmo evitar que projetos financeiramente inviáveis sejam sequer iniciados.

Em resposta à complexidade proporcionada pelas mudanças no clima, o Ministério dos Transportes, por exemplo, já incorporou a resiliência climática como eixo de suas ações e ampliou de R$ 6 bilhões, em 2023, para os atuais R$ 22 bilhões de orçamento. Em paralelo, o Ministério de Portos e Aeroportos criou em agosto um grupo de trabalho para aperfeiçoar a gestão de riscos na infraestrutura.

Já André Dabus, coordenador do Comitê de Financiamento, Fundos, Riscos e Garantias da Abdib, lembrou que a matriz de riscos é a espinha dorsal dos contratos, e citou um exemplo: “As enchentes do Rio Grande do Sul trouxeram a noção de que o que antes se considerava improvável pode acontecer. Não se podem mais estruturar projetos com base em dados climáticos do passado. ”

Suporte ao agronegócio

Atualmente, 3,3 milhões de hectares contam com cobertura de seguro rural no Brasil. É uma área 75% menor do que a de 2021, quando alcançou o recorde de 13,4 milhões de hectares, de acordo com dados do Observatório do Crédito e do Seguro Rural do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro). O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) precisaria de um orçamento de R$ 2,37 bilhões para que a área segurada recuperasse os níveis de cinco anos atrás, mas foi reduzido a R$ 473,8 milhões em 2026.

“Com mais pessoas contratando, o seguro rural se tornaria mais acessível. Precisamos encarar o seguro rural como política de estado”, alerta Guilherme Rios, coordenador de Produção Agrícola da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Hailton Madureira, diretor de Relações Institucionais da CNseg, reforça o papel dos seguros de seguirem acompanhando as necessidades da sociedade. “O setor vai estar sempre próximo dos clientes no desenho de soluções relevantes. O mercado vai demandar, a regulamentação vai exigir, e o segurador vai comparecer. ”

O seguro desempenha um papel relevante na gestão de riscos de inundação. E, quando os incidentes acontecem, proporciona apoio financeiro para que indivíduos e empresas se recuperem

— José Marengo, climatologista e coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden

Diante da intensificação dos eventos climáticos, é fundamental ampliar a cobertura securitária e fortalecer a prevenção, elementos essenciais para aumentar a resiliência do país

— Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg

Seguro é como energia elétrica: está em todo lugar, faz tudo funcionar, mesmo que as pessoas não percebam sua presença. Seu principal produto é a tranquilidade que resulta da transferência de risco

— Dyogo Oliveira, presidente da CNseg

Para ser estável, todo projeto de infraestrutura bem desenhado define risco e conta com um bom conjunto de fatores de mitigação, incluindo seguro fiança, seguro garantia e capitalização

— Hailton Madureira, diretor de Relações Institucionais da CNseg

https://valor.globo.com/conteudo-de-marca/cnseg/noticia/2026/09/14/eventos-climaticos-extremos-desafiam-infraestrutura-e-agronegocio-no-pais.ghtml

Fonte: Kelly Cristina Damiao de Almeida / DICOR /kelly.almeida@cnseg.org.br