Estudo do Instituto Locomotiva para a CNseg mostra que moradores de comunidades querem saber mais sobre seguros, mas enfrentam barreiras de acesso e comunicação
Os moradores de favelas e periferias representam um dos maiores mercados potenciais para a expansão dos seguros no Brasil. Apesar da restrição de renda enfrentada por boa parte dessa população, eles movimentam cerca de R$ 300 bilhões por ano, demonstram interesse crescente pelo tema e reconhecem o valor da proteção financeira em situações de risco. Os dados fazem parte da pesquisa “Expansão de Seguros Inclusivos em Comunidades Periféricas”, apresentada por Rachel Rua Baptista, diretora de Projetos Especiais do Instituto Locomotiva, durante o evento Seguro para Todos os Bolsos, promovido pela CNseg.
O Brasil reúne, atualmente, mais de 12 mil favelas, onde vivem 17,2 milhões de pessoas, distribuídas em cerca de 6 milhões de domicílios. Se fossem um estado brasileiro, as favelas formariam a terceira maior unidade da Federação em População, empatadas com o Rio de Janeiro.
Um dos principais resultados do levantamento é que o seguro não é percebido como um produto distante dessa população. Mais da metade dos entrevistados (54%) afirmou já ter buscado informações sobre seguros, enquanto 31% disseram que nunca procuraram, mas gostariam de saber mais. Apenas 15% declararam não ter interesse no assunto. Entre as barreiras de contratação que as garantias precisam remover estão a percepção de custo elevada e a desconfiança sobre o funcionamento do seguro no momento da necessidade, além da falta de produtos e narrativas que dialogam com riscos cotidianos, recorrentes e financeiramente sensíveis.
Outro aspecto relevante do estudo é que grande parte dos entrevistados já respondeu a situações que poderiam ter sido amenizadas pela contratação de um seguro. Entre os episódios mais recorrentes, 60% disseram ter o celular roubado ou o convívio com alguém que passou por essa situação, sem conseguir substituí-lo rapidamente; 55% sofreram com a quebra de equipamentos utilizados para trabalhar; 47% perderam renda após adotar e ficar impossibilitados de exercer suas atividades; 41% enfrentaram dificuldades para custear despesas funerárias; 29% tiveram carro ou motocicleta roubados, comprometendo sua posição para o trabalho.
Após refletir sobre essas experiências, muitos pensaram que a existência de um seguro teria reduzido significativamente os impactos financeiros nessas situações.
Educação securitária ganha protagonismo
Os resultados da pesquisa abriram o primeiro painel do evento, dedicado ao tema “Culturas de Risco e Educação em Seguros: proteção de populações vulneráveis”, mediado por André Nunes, diretor de Assuntos Corporativos, Institucionais e Sindicais da CNseg. Participaram do debate Julia Normande Lins, diretora técnica da Susep; Amaury Oliva, diretor de Sustentabilidade da Febraban; e Ronny Martins, gerente de Produtos da Escola de Negócios e Seguros.
Ao abrir a discussão, André Nunes destacou que a educação securitária é um dos pilares da estratégia da CNseg para ampliar a proteção financeira da população. Para ele, além de transmitir conhecimento, a educação deve estimular uma mudança cultural semelhante à corrida com o uso do cinto de segurança. “A educação ajuda as pessoas a compreenderem que proteger o futuro também faz parte das decisões do presente”, afirmou.
A representante da Susep, Júlia Normande Lins, afirmou que o regulador e o mercado precisam se colocar no lugar do consumidor para entender suas dificuldades. Segundo ela, a educação financeira é fundamental, mas não basta. “O consumidor precisa perceber que aquele produto foi pensado para sua realidade e que efetivamente entregará proteção quando ele precisar”, destacou.
A diretora destacou que o setor precisa desenvolver produtos mais aderentes às necessidades de diferentes públicos e reforçar que a percepção de valor do seguro depende da experiência do consumidor durante toda a jornada, desde a contratação até o eventual pagamento de indenização.
Para Amaury Oliva, da Febraban, a cultura do seguro deve ser incorporada ao conceito mais amplo de educação financeira. Ele acredita que a percepção de que o seguro representa apenas um gasto, quando deveria ser compreendido como instrumento de proteção da renda e do patrimônio. Ele sugeriu que os programas de educação financeira passem a abordar, de forma integrada, orçamento doméstico, reserva de emergência, previdência complementar e gestão de riscos. Ao mesmo tempo, ressaltou que o mercado também precisa fazer sua parte.
Formação de bateria
Ronny Martins, da ENS, lembrou que o debate sobre microsseguros já existe há mais de duas décadas, mas muitos desafios permanecem: práticas informais como rifas, vaquinhas e empréstimos familiares continuam sendo as principais estratégias impostas pelas famílias de baixa renda para enfrentar emergências.
Ronny defendeu maior integração entre seguros, reguladores e instituições de ensino para ampliar a educação securitária e destacou iniciativas como o programa Amigo do Seguro, projetos desenvolvidos em parceria com a CNseg, o UNICEF e a Generation Brasil, além do portal Tudo Sobre Seguros, comentários à divulgação gratuita de informações para consumidores.
Uma agenda para ampliar a inclusão securitária
Apesar das diferentes abordagens apresentadas pelos participantes, o painel revelou um diagnóstico comum. Ampliar a presença de seguro entre a população de baixa renda exige mais que reduzir preços ou simplificar produtos. Será necessário construir confiança, comunicar melhor, desenvolver soluções compatíveis com o cotidiano das comunidades e manter um relacionamento permanente com o consumidor. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva indica que esse mercado existe. O desafio agora é fazer com que a proteção securitária deixe de ser percebida como um serviço distante e passe a integrar as estratégias cotidianas de segurança financeira das famílias brasileiras.

