Porque levou tanto tempo a adiar-se os Jogos Olímpicos

Contrato entre o COI e a cidade de Tóquio não contemplava adiamentos por causa de uma pandemia e a situação teve de ser gerida em conjunto com pinças. Economistas preveem prejuízos para a economia japonesa na ordem dos 5,5 mil milhões de euros.

“As consequências financeiras do adiamento dos Jogos Olímpicos não foram discutidas e não são a prioridade. Este adiamento da competição é para proteger vidas.” Foi desta forma sucinta que Thomas Bach, presidente do Comité Olímpico Internacional, explicou na terça-feira a decisão de adiar os Jogos Olímpicos de Tóquio, agendados para este verão, para 2021, um anúncio que se tornou oficial após conversas entre o primeiro-ministro japonês e o líder do COI, por videoconferência, com as duas partes a publicarem por volta da hora do almoço um comunicado conjunto a oficializar o adiamento da competição.

O adiamento dos Jogos Olímpicos estava em cima da mesa há vários meses, desde que a pandemia de covid-19 surgiu na China e ainda muito antes de atingir em larga escala a Europa e outros continentes. Mas foi sobretudo no último mês, com o aumento brutal de casos em todo o mundo, e já depois de o futebol e a NBA terem parado, que o COI começou a receber fortes pressões das diversas federações (o Canadá e a Austrália chegaram mesmo a anunciar que não iriam estar presentes) no sentido de adiar os Jogos de Tóquio. Uma decisão que foi sempre sendo adiada devido aos muitos interesses em jogo, sobretudo a nível dos contratos celebrados e do forte impacto económico que uma medida destas iria originar.

Nesta semana, em declarações à BBC, John Mehrzad, advogado especialista em direito desportivo, tinha alertado para o facto de ser importante que todas as entidades estivessem de acordo, para assim se evitar um litígio que poderia implicar indemnizações que ascenderiam a muitos milhões de euros. “A parte que cancelar ou adiar o acordo, a menos que seja por mútuo acordo, estará a violar o contrato e a expor-se a enormes danos financeiros”, referiu, adiantando que não haveria nenhuma seguradora que suportasse os valores em causa e lembrado que nos regulamentos da Organização Mundial da Saúde em lado nenhum se fala na possibilidade de os Jogos Olímpicos poderem ser cancelados.

No contrato celebrado entre o Comité Olímpico Internacional e a cidade de Tóquio estavam previstas várias condições para o cancelamento da competição, desde guerras a boicotes políticos. Mas nunca ficou firmada qualquer exceção relacionada com uma pandemia. O artigo 66 do referido vínculo fala em cancelamento “se em algum momento, antes da cerimónia inaugural ou durante os Jogos Olímpicos, existisse um estado de guerra, desordem civil, boicotes, embargos decretados pela comunidade internacional ou uma situação reconhecida em termos oficiais como beligerante”.

O mesmo contrato falava ainda da possibilidade de “cancelamento caso a segurança dos participantes estivesse ameaçada de forma grave ou comprometida por qualquer razão”. Também na chamada Carta Olímpica não existe qualquer referência a uma pandemia, apesar de num dos pontos estar salvaguardada a saúde dos atletas.

Recentemente, no início deste mês, Seiko Hashimoto, a ministra japonesa com a pasta dos Jogos Olímpicos, referiu publicamente que o contrato celebrado permitia que os Jogos fossem adiados…, mas apenas até ao final do ano. “O contrato pede que os Jogos sejam realizados em 2020. Isso pode ser interpretado como permitindo um adiamento, mas sempre por alguns meses, até ao final do ano”, disse. Uma solução, contudo, inviável.

Prejuízos de 5,5 mil milhões de euros

Além de todas estas formalidades, estavam em causa muito outros aspetos de ordem económica. A estimativa inicial dos custos da realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio apontava para um valor a rondar os 11 mil milhões de euros. Mas uma auditoria recente previa uma grande derrapagem e que esse valor praticamente duplicasse.

Apesar de ser complicado avançar um número para os prejuízos que o Japão terá com esta decisão, alguns economistas asiáticos apontam para valores a rondar os 5,5 mil milhões de euros na economia nipónica, um impacto não só em termos estatais mas também a nível de empresas privadas, como é o caso da Bridgestone (empresa de pneus), que investiu muito dinheiro em patrocínios. Outras empresas que esperam inúmeros prejuízos são a Toyota Motor e a Panasonic.

De acordo com a AFP, várias empresas japonesas investiram cerca três mil milhões de euros em patrocínios, valor que já foi entretanto gasto e sem o retorno pretendido. Além disso, há também a questão do turismo, numa altura em que já estavam reservados milhões de camas, e ainda os direitos de transmissão televisivos.

A BBC, numa peça publicada há dias, chamava ainda a atenção para os custos com as infraestruturas, dos estádios às aldeias olímpicas, que agora terão de esperar mais um ano para serem utilizadas. Em relação às aldeias olímpicas, é também levantado o problema em torno das reservas que já estavam feitas e que ficam agora sem efeito, assim como facto de estar programado que se tornassem condomínios de habitação mal a competição terminasse.

Estes são apenas alguns dos muitos obstáculos que estiveram em cima da mesa nos últimos dias. Mas no final acabou por prevalecer o bom senso, com a saúde dos atletas e do público em geral a serem determinantes para a decisão final, em detrimento dos prejuízos económicos.

Leia aqui o comunicado conjunto do COI e do primeiro-ministro japonês a anunciar o adiamento dos Jogos Olímpicos.

“O presidente do Comité Olímpico Internacional, Thomas Bach, e o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, tiveram uma conferência por telefone esta manhã para discutir a constante mudança de contexto tendo em conta a covid-19 e os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020. A eles juntaram-se Mori Yoshiro, presidente do Comité de Organização de Tóquio 2020, Hashimoto Seiko, ministro olímpico, Koike Yuriko, governador de Tóquio, John Coates, presidente da Comissão de Coordenação do COI, Christophe De Kepper, diretor-geral do COI, e Christophe Dubi, diretor executivo do COI para os Jogos Olímpicos.

O presidente Bach e o primeiro-ministro Abe expressaram as suas preocupações mútuas sobre a pandemia global da covid-19, o que tem feito nas vidas das pessoas e o impacto significativo que está a ter na preparação global dos atletas para os Jogos. Numa reunião muito amigável e construtiva, os dois líderes louvaram o trabalho feito pelo Comité de Organização de Tóquio 2020 e notaram grandes progressos na luta do Japão contra a covid-19.

A amplitude deste surto sem precedentes e imprevisível viu a situação deteriorar-se no resto do mundo. Ontem, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que a pandemia da covid-19 está a acelerar. Há mais de 375 000 casos espalhados em todo o mundo e quase em todos os países e esse número está a aumentar todas as horas.

Perante as presentes circunstâncias e baseado na informação fornecida pela Organização Mundial da Saúde hoje, o presidente do COI e o primeiro-ministro do Japão concluíram que os XXXII Jogos em Tóquio têm de ser recalendarizados para uma data depois de 2020 mas não depois do verão de 2021, para salvaguardar a saúde dos atletas, de todas as pessoas envolvidas nos Jogos Olímpicos e da comunidade internacional.

Os líder concordaram que os Jogos Olímpicos de Tóquio podem permanecer como um farol de esperança para o mundo durante estes tempos conturbados e a chama olímpica pode ficar como a luz ao fundo do túnel no momento em que o mundo se encontra no presente. Assim, ficou acordado que a chama olímpica vai ficar no Japão. Ficou também acordado que os Jogos continuarão a ter o nome de Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio 2020.”

Presidente do COP e governo português falam em “tranquilidade”

As reações de satisfação não se fizeram esperar, já que a grande maioria das federações, sobretudo no último mês, vinham alertando para obrigatoriedade de os Jogos Olímpicos serem adiados.

“É positivo e corresponde ao apelo de um número significativo de organizações desportivas. É sobretudo positivo que não se tenha esperado pelas quatro semanas [que o Comité Olímpico Internacional tinha sinalizado como prazo para uma decisão]”, expressou José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico Português.

Segundo o líder do COP, a decisão traz tranquilidade, particularmente para atletas e organizações de países “com fortes limitações ao treino e preparação”. Mesmo que a decisão parecesse “inevitável”, surpreende “que tenha sido tão rápida”, confessa Constantino, que já tinha pedido uma tomada de posição firme e célere ao Comité Olímpico Internacional (COI).

Alertando que a data específica não está ainda encontrada, estando balizada “entre o verão de 2020 e o verão de 2021”, o “mais natural seria replicar um ano depois”, explica, ainda que seja preciso “olhar para os calendários internacionais e ver como está a situação”, além da própria evolução da pandemia. “É positivo que não se tenha esperado pela definição da nova data e se tenha anunciado ao mundo que se adiam os Jogos”, rematou.

Também João Paulo Rebelo, secretário de Estado da Juventude e do Desporto, considerou que o adiamento dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020, devido à pandemia de covid-19, veio trazer “tranquilidade ao movimento desportivo”.

“A primeira reação é a de esta [a decisão hoje tomada de adiar os Jogos] ter sido uma boa notícia, no sentido de não ter demorado muito tempo. Estava a causar uma grande ansiedade ao movimento olímpico e paralímpico, e em particular aos atletas”, destacou o governante.

Segundo João Paulo Rebelo, esta “incerteza” em torno do adiamento ou não da competição não permitia restaurar “a tranquilidade no movimento desportivo”, algo que assim foi conseguido.

Num momento em que os atletas de alta competição podem treinar, ainda que altamente condicionados no âmbito das medidas determinadas pelo governo devido ao estado de emergência decretado para enfrentar a pandemia, o secretário de Estado vê este como um momento em que se ganhou “algum oxigénio”. “Para que nos possamos reprogramar da melhor forma, garantindo as melhores condições, sobretudo as de saúde, para que ninguém esteja em risco. Por mais importante que seja o desporto ou outra atividade, acima de tudo está a nossa saúde e a saúde de todos”, sentenciou.

A decisão de adiar os Jogos Olímpicos para 2021 motivou também o adiamento dos Jogos Paralímpicos, que estavam previstos para o período entre 25 de agosto e 6 de setembro.

O presidente do Comité Paralímpico de Portugal (CPP) considerou que a decisão “faz todo o sentido” e “põe fim à ansiedade que já afetava muitos atletas”. José Lourenço afirmou que a “decisão vem ao encontro da necessidade de proteção da saúde de todos os agentes desportivos”, e elogiou o “sentido de responsabilidade” do comité organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Tóquio 2020.

O líder do CPP admitiu ainda que a decisão “repõe as condições de igualdade entre todos os

atletas”. “Esta decisão faz todo o sentido, e permite que os atletas reiniciem, com tranquilidade e quando houver condições, o seu processo de preparação”, disse.

Fonte: Diário de Notícias