Só há uma seguradora 100% nacional

O regulador dos seguros, José Almaça, tem tido muitas operações de venda para aprovar.

Mudança de mãos nos seguros em Portugal não alterou significativamente a oferta de produtos nem os preços praticados

O controlo das seguradoras em Portugal mudou muito. 2014 foi o ano de viragem, depois de o nosso país ter estado sob o programa de assistência internacional e após as grandes convulsões que se fizeram sentir nos principais bancos do sistema, que dominavam as maiores seguradoras.

A necessidade de os bancos se reestruturarem e capitalizarem ditou um afastamento da atividade seguradora, promovendo-se parcerias com investidores estrangeiros, como aconteceu no BCP e está agora a acontecer no Montepio Seguros. Entretanto, a Fidelidade, a maior seguradora do país, que era detida pela CGD, e a Tranquilidade, que pertencia ao Grupo Espírito Santo, foram vendidas a grupos não europeus em 2014.

Entre as primeiras 10 seguradoras que operam no mercado português (ramos Vida e Não Vida) só restará uma: a Crédito Agrícola Seguros, detida a 100% pelas Caixas Agrícolas. Isto se a compra da maioria do capital da Montepio Seguros (detida pela Associação Mutualista Montepio Geral) for aprovada pelo regulador dos seguros (ver gráficos).

A concentração levou também a belga Ageas, que tem uma parceria com o BCP no ramo Vida, a comprar-lhe a atividade Não Vida e mais recentemente a operação da Axa em Portugal. Na última semana, o BPI Vida foi vendido ao grupo espanhol CaixaBank (que domina o BPI).

Falta um grande grupo nacional

O presidente da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), José Almaça, não hesita em dizer, em declarações ao Expresso, que “gostaria que existisse um grande grupo segurador com capital português”.

À margem de uma conferência organizada pela Associação Portuguesa de Seguradores (APS) sobre o impacto do sector na economia, José Almaça explica que “não há apetência por parte dos empresários portugueses em investir nos seguros”. Como aliás aconteceu na banca, outrora participada por investidores de referência nacionais.

A complexidade do sector e a necessidade cada vez maior de reforçar os capitais das companhias por via de novas exigências de solvência tem afastado igualmente os tradicionais investidores europeus que apostavam no mercado.

Isto porque também eles se debatem com as mesmas exigências nos seus países de origem e Portugal é um mercado pequeno. Confrontado sobre a entrada de grupos chineses e norte-americanos no sector dos seguros, José Almaça afirma que “o mais importante não é a nacionalidade dos compradores, mas sim a continuidade das companhias no mercado”. E acrescenta que é fundamental que “os novos operadores cumpram as regras, tenham capital para injetar nas companhias e façam uma gestão adequada — cubram os riscos e mantenham os postos de trabalho — para que as mesmas sobrevivam”.

O sentimento de alguns especialistas com quem o Expresso falou é semelhante. Todos lamentam que o capital nacional seja cada vez menor no sector, mas alguns dizem que a gestão das seguradoras detidas por capital estrangeiro tem sido “boa”. Quanto à oferta de produtos e preços praticados, afirmam que “a concorrência é saudável” e que os consumidores “não são prejudicados por isso”.

Já em relação às recentes operações de compra, nomeadamente da francesa Groupama e da maioria do capital da Montepio Seguros (55%) por parte de dois grupos chineses dedicados sobretudo à área das energias, a sua expectativa é a de “esperar para ver” qual a intenção destes grupos no mercado português. Sublinhando, no entanto, que a fragilidade de certas seguradoras e a necessidade de reforçarem os seus capitais acaba por abrir a porta a este tipo de investidores não europeus que pretendem acima de tudo entrar na Europa através de Portugal.

José Almaça não antevê grandes problemas na aprovação da entrada dos chineses da CEFC no Montepio Seguros e do China Tianyng na Groupama. “Se a documentação exigida aos compradores for entregue sem que falte nada, a aprovação demorará no máximo 90 dias”, garante.

O grupo chinês Fosun, que tem 25,16% do BCP, comprou a Fidelidade por €1,1 mil milhões e logo a seguir utilizou a seguradora para comprar a Luz Saúde (do Grupo Espírito Santo). Pouco depois de ter sido comprada, a Fidelidade investiu na Fosun Internacional quase o equivalente ao preço que a Fosun pagou (€1000 milhões), entre outros investimentos em ativos imobiliários do grupo chinês. No ano seguinte, a Fosun teve de reforçar o capital da Fidelidade em €500 milhões.

A Tranquilidade foi outra das seguradoras que caiu nas mãos de capital estrangeiro, neste caso norte-americano, no mesmo ano que a Fidelidade. Por razões diferentes, a venda da Tranquilidade esteve associada ao colapso do BES.

Perdeu-se mais uma companhia de peso e com história de capitais maioritariamente portugueses, na qual a reestruturação ditou mudanças na gestão e no redimensionamento do negócio, mais focado no ramo Não Vida, o que não aconteceu com a Fidelidade. Os norte-americanos da Apollo Management pagaram €40 milhões pela Tranquilidade e ficaram com a seguradora do ex-Banif, a Açoreana, não se conhecendo o valor que pagaram pela operação. Em ambos os casos tiveram de injetar capital após a compra, já que as empresas estavam descapitalizadas.

Na calha para venda estão também, apesar de não serem já detidas por capital nacional, a GNB Vida (do Novo Banco, detido maioritariamente pelos norte-americanos do fundo Lone Star) e a Generali. No que toca à GNB Vida existe interesse por parte de investidores europeus, nomeadamente ibéricos, e americanos, que até ao final do ano irão apresentar propostas.

Fonte: Expresso