Alto risco encarece seguros no Rio Grande do Sul

Em tempos de globalização, o comportamento do mercado de seguros não costuma apresentar grandes variações entre os diferentes estados do Brasil – e há até mesmo semelhanças perceptíveis entre regiões e países distintos. Mas o Rio Grande do Sul apresenta características próprias – relacionadas com fatores culturais, políticos, econômicos e até mesmo climáticos – que influem nas estratégias e nos produtos oferecidos pelas empresas e instituições do setor, que se veem desafiadas a acompanhar, em ritmo cada vez mais rápido, as oscilações da conjuntura, os avanços tecnológicos e as consequentes transformações no comportamento dos clientes.

Quanto aos números, o desempenho do setor no mercado gaúcho vem demonstrando sintonia com a situação do Brasil. Aqui, como no conjunto do País, os seguros de pessoas se destacam na arrecadação – cresceram 13,01% no Estado, na comparação entre os oito primeiros meses deste ano e do ano passado. De acordo com as estatísticas da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg), o crescimento das coberturas de pessoas verificado no Rio Grande do Sul em 2016, em relação a 2015, foi de 15,6% – um índice superior ao dos outros estados da região Sul e também à variação global do País, que ficou em 15,4% no mesmo período. Se considerada a arrecadação total do mercado, o aumento no Estado foi de 8,6%, e de 9,3% no País.

Um dos fatores que mais influenciam na arrecadação de seguros no Estado é o alto índice de sinistralidade – com impacto mais forte nas modalidades relacionadas com automóveis e residências. “Proporcionalmente, o risco é maior no Rio Grande do Sul, principalmente quanto a seguros de carros, que costumam ser o carro-chefe das seguradoras que não atuam com previdência. O percentual de sinistralidade vem se acentuando de dois ou três anos para cá”, explica o diretor do Sindicato das Empresas de Seguros Privados, de Resseguros e de Capitalização no Estado do Rio Grande do Sul (Sindseg-RS), Pedro Moreira Garcia.

Na visão do diretor, um dos principais fatores para o alto índice de criminalidade – com destaque para os roubos de carros – são as dificuldades da política local. “Há muito tempo, vivemos um problema político de polarização. Os processos e gestões políticas desembocaram nesse cenário de maior risco”, diz Garcia, lembrando que esse contexto vem resultando em preços mais altos para os clientes. O mesmo também acaba ocorrendo com os seguros residenciais – mas não pela violência crescente, e sim pelo fator geográfico e climático: “Quantos temporais e vendavais tivemos nos últimos tempos? Claro que também acontece no resto do Brasil, mas aqui sempre foi assim”.

Outro aspecto importante da economia gaúcha, a ênfase no agronegócio e na produção rural, também tem seus reflexos no mercado de seguros. Conforme a CNseg, a modalidade de seguro rural teve no Estado uma alta de 10% no acumulado de janeiro a agosto deste ano, em relação a igual período de 2016. “É uma categoria que tem peso forte aqui, é um dos estados que mais têm esse tipo de seguro”, observa Garcia, lembrando que as atividades rurais costumam repercutir na procura por dois produtos. Um são os seguros relacionados com as lavouras, feitos sobre o que está sendo plantado, para prevenir eventuais perdas em função de adversidades climáticas, por exemplo. Outro são as coberturas para máquinas e equipamentos. “Cerca de 30% (dos produtores) fazem esse seguro. Temos território para explorar aí. Muitas vezes, o banco só financia se o produtor fizer um seguro”, ressalta Garcia.

Além das particularidades do cenário sulista, o mercado também enfrenta outros desafios, semelhantes ao de todas as partes do País – entre eles, a adaptação ao contexto econômico e ao intenso fluxo de comunicação interpessoal via internet. “As seguradoras têm de se adequar ao que está acontecendo economicamente e ao perfil dos consumidores. Em 2010 e 2011, tivemos um boom, agora é outro momento”, compara Garcia, também gerente de filial da Liberty Seguros em Porto Alegre. “O grande desafio é criar alternativas de produtos. Na área de automóveis, por exemplo, há a aposta em novas modalidades, mais básicas e de menor custo”, acrescenta o diretor.

Crise pode trazer lições

Estado de origem de importantes instituições do mercado de previdência e seguros, como o Gboex e a Fundação CEEE, o Rio Grande do Sul é considerado uma espécie de berço histórico do mercado de seguro de vida no País. “O nosso Estado, talvez por ter uma presença significativa de imigrantes europeus, criou um entendimento mais aculturado, menos materialista. E, para fazer seguro de vida, é preciso ter esse entendimento maior”, afirma Clodomiro Dorneles, vice-presidente do Clube de Vida e Benefícios-RS – entidade que reúne seguradoras, corretores e outras instituições, como os sindicatos dos corretores e das seguradoras.

Segundo Dorneles, estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro figuram entre as primeiras posições no mercado nacional de seguros, com o Rio Grande do Sul e o Paraná disputando o quarto lugar. O contexto gaúcho – com aumento da criminalidade e redução do poder aquisitivo de funcionários públicos, que vêm recebendo salários parcelados – representa um desafio especial para o setor. E também para os próprios consumidores, que estariam mais sensibilizados para as questões relativas à poupança. “O parcelamento de salários, por exemplo, se reflete na educação financeira, faz as pessoas se planejarem, ou pelo menos pensarem em ter uma reserva. Isso pode trazer um efeito de aprendizado, de preocupação com o futuro, com as pessoas buscando fazer poupança, talvez optando pela previdência complementar”, destaca Dorneles, também professor da Escola Nacional de Seguros e corretor.

Números de seguros e previdência no ESTADO –

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Fonte: Marco Quintana/Jornal do Comércio – CNSeg